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Ao cair da noite – Roberto Bethônico

A noite simboliza o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, que vão desabrochar em pleno dia como manifestação de vida. Ela é rica em todas as virtualidades da existência. Mas entrar na noite é voltar ao indeterminado, onde se misturam pesadelos e monstros, as ideias negras. Ela é a imagem do inconsciente e, no sono da noite, o inconsciente se libera. Como todo símbolo, a noite apresenta um duplo aspecto, o das trevas onde fermenta o vir a ser, e o da preparação para o dia, de onde brotará a luz da vida.” ¹



 

Os trabalhos de Eduardo Hargreaves nos mostram não só as características da noite mas as do outro lado da noite. O que seria ou encontraríamos no outro lado da noite? Teria a noite outro lado? Seria esse outro lado um outro dia ou uma outra noite composta por uma escuridão ainda maior que não nos deixaria senão a opção de vê-la em todo seu esplendor de escuridão? “A noite anoiteceu”, escreveu Drummond no poema “A noite dissolve os homens”.
 

Assim como as duas citações nos iluminam a respeito da noite, as obras de Eduardo Hargreaves iluminam essa escuridão carregada de dualidade que toda e qualquer imagem possui: a noite e o dia,
o consciente e o inconsciente, o caos e a ordem. Desta forma o artista parece não querer dispensar nenhuma possibilidade de construção em seus trabalhos que não seja a da adição advinda das inúmeras sobreposições, apagamentos e veladuras realizados em carvão, pigmentos naturais, pastéis, grafite,
óleo de linhaça, cera de abelha e parafina. Nesta espiral em constante ascensão, como ciclos que
se repetem mas se modificam a cada retorno, o artista parece recolher tudo o que está ao seu redor como elemento integrante da obra, até mesmo o observador, ao qual se refere como observador-interator, ou seja, aquele que não só observa a obra, mas participa e interfere nela e no espaço
em que estão inseridos.

 

Ao realizar os trabalhos Paisagens Rotas e Viagem ao Outro Lado da Noite, Hargreaves nos convida
a interferir, problematizar e a co-estabelecer relações entre as obras e o espaço, nos fazendo pensar
nas inúmeras possibilidades de rotas a percorrer entre as imagens. A intenção do artista parece ser também a de que, uma vez estabelecidas essas relações, as mesmas modifiquem nossa percepção não só sobre elas mas sobre nós mesmos: a impossibilidade de obtermos um sentido final, a impossibilidade da certeza e da verdade absolutas. As rotas propostas inicialmente na montagem da exposição são apenas indícios do vir a ser, assim como a própria noite nos oferece e nos dissolve. Cabe então a nós, observadores-interatores, viajarmos ao outro lado da noite construindo nossas próprias rotas
e paisagens. Boa viagem!



 

¹ CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Rio de Janeiro: José Olímpio, 1996.